Sempre que um novo estudo aparece trazendo grandes conclusões de saúde, nós gostamos de colocá-lo sob pressão, usando a Lista de Verificação para Avaliação do Estudo do International Food Information Council (IFIC) para avaliar sistematicamente a hipótese, o desenho, os métodos e as análises. Veja abaixo nossa avaliação do mais novo estudo publicado “Glicano derivado de carne vermelha promove a inflamação e progressão do câncer”, escrito por Marcia D. Greenblum MS, RDN, Diretora Sênior da Health and Wellness Communications.

Para uma perspectiva especializada sobre as conclusões tiradas do estudo e como elas impactam os consumidores, veja nossa entrevista com Roger Clemens, DrPH, CFS, CNS, FACN, FIFT, FIAFST, Professor Adjunto de Farmacologia e Ciências Farmacêuticas da Escola de Farmácia da USC, Centro Internacional para Ciências Regulatórias.

Q1. O título e o resumo refletem o mesmo estudo?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A1. Não, o título “Glicano derivado de carne vermelha promove a inflamação e progressão do câncer” leva a acreditar que existem evidências que podem ser generalizadas para a fisiologia humana normal. O título deveria dizer “em camundongos ou animais de laboratório”.

Q2. O estudo é útil, novo e/ou relevante para humanos?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A2. Não. O estudo pode ser novo, mas a relevância para humanos é duvidosa e ainda não comprovada. Em humanos, o câncer de cólon, e não o de fígado, está associado ao consumo de carne vermelha, mas esta pesquisa focou apenas em carcinomas hepáticos. Não há nenhuma discussão sobre os níveis médios de ingestão humana ou efeitos do preparo da carne.

Q3. A hipótese está claramente declarada?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A3. Não. Os autores parecem ter uma técnica para medir a substância que desejam provar ser carcinogênica.

Q4. A metodologia do estudo foi descrita em detalhes?

Sim / Não.
Os autores citam um artigo para os métodos?
Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A4. Não. O procedimento para extrair o glicano Neu5Gc foi descrito em detalhes embora ele não tenha sido validado por um laboratório externo.
O procedimento para preparar e alimentar os camundongos foi discutido; contudo, a evidência da relevância para o risco à saúde humana em níveis de ingestão normais não é apresentada.

Q5. Os métodos são válidos, precisos e confiáveis?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A5. Como declarado acima, a técnica de extração do glicano não é validada. A precisão e a confiabilidade são desconhecidas e devem ser repetidas. O que se sabe atualmente sobre os glicanos é: 1) estima-se que 10-30% do que é consumido dos alimentos são absorvidos. Não há controle ou discussão sobre a biodisponibilidade da substância neste experimento. 2) O teor de glicanos em diferentes alimentos varia muito e depende de fatores como o teor de proteína e gordura do alimento, métodos de cocção, calor e  processamento. Isso não é discutido nem considerado.

Q6. A análise dos resultados faz sentido?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A6. Sim, como uma medição única da inflamação na resposta a grandes doses de uma substância estranha numa pequena população de camundongos geneticamente preparados.

Q7. As conclusões são corroboradas pelos dados?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A7. As amplas aplicações que os autores fazem com relação às implicações patofisiológicas humanas não são válidas. Não há justificativa que sugira que o consumo de carne vermelha nos níveis médios de consumo americanos causaria um risco similar nem qualquer resultado que considere o impacto de outros alimentos ou nutriente ou métodos de preparo de alimentos.

Q8. Existem conflitos de interesse?
(pessoal, acadêmico, financeiro, conflitos de compromisso)

Sim /  Não
Se sim, compare os achados com a totalidade da evidência.

A8. Sim. Dois autores deste estudo são co-fundadores e conselheiros da SiaMab Therapeutics, Inc., que possui uma licença da UC San Diego technologies relacionados a anticorpos anti-Neu5Gc no câncer.

Q9. O estudo se encaixa na totalidade da evidência?

Sim / Não. Veja os Resultados com Desconfiança.

A9. Não. O consumo de carne vermelha está associado a diversas doenças não transmissíveis, incluindo obesidade, doença cardiovascular, diabetes e alguns cânceres.  Nenhuma dessas associações identifica o Neu5Gc como um possível agente promotor ou contribuinte para essas condições. Poucas publicações sugerem que diferenças na glicação na carne vermelha podem impactar o diabetes.