(Megan Meyer, PhD)

[Ciência inútil mascarada como ciência boa]

Antes de começar, há algo que preciso revelar: Sou pesquisadora por formação e recebi meu PhD em Microbiologia e Imunologia, com foco em Imunologia Nutricional.

Puxa! Credenciais reais em ciências nem sempre são populares em conversas sobre comida, por isso estou aliviada por tirar esse peso das minhas costas. Agora que a verdade foi revelada, vamos ao que interessa: ciência inútil.

Nada me deixa mais irritada do que isso. Amplamente falando, ‘ciência inútil’ se refere a estudos que não aderem a um método científico central e direcionador, não podem ser testados ou reproduzidos com confiabilidade e, assim, apresentam declarações ou resultados imprecisos.

Não sou a única pessoa a estar cansada da ciência duvidável. O colega e escritor científico John Bohannon tem trabalhado incansavelmente para expor problemas acerca da publicação e promoção da má ciência (e, algumas vezes, falsa!). Bohannon liderou uma fascinante exposição na qual abordava as taxas de publicação de um estudo falso em periódicos de acesso livre. No final das contas, quando Bohannon enviou seu estudo falso para mais de 300 periódicos, quase 60% deles quis publicar seus resultados. Isso destaca alguns sérios problemas no campo do estudo científico.

Recentemente, Bohannon deu mais um passo à frente para a cobertura da ciência inútil pela mídia. Bohannon e seus colegas conduziram um pequeno estudo clínico para ‘investigar’ o impacto do chocolate amargo na perda de peso. Eles observaram que sujeitos em uma dieta em particular (que também comeram chocolate amargo) perderam peso mais rápido do que o grupo de controle. Parece muito bom, certo?

Acontece que, se você ler as entrelinhas e pensar criticamente sobre este estudo, há muitas falhas óbvias. Infelizmente, muitos meios de comunicação não dispenderam tempo para entender o estudo. Ao invés disso, eles rapidamente publicaram matérias anunciando manchetes como “Quem Come Chocolate Fica Magro!” e “O Mundo Ficou Doce? Comer Chocolate Pode ajudar a PERDER Peso”.

Publicar e promover a ciência inútil pode ter grandes implicações, mesmo para o consumidor médio de chocolate. Como cientista, eu estou particularmente frustrada pelo fato da má ciência conseguir se mascarar como uma ciência real. A má ciência é capaz de deixar as pessoas eufóricas e interessadas nos últimos “achados”. Assim, a ciência rigorosa, ligada a padrões muito mais altos, desempenha um papel secundário, pois suas manchetes não são tão atraentes.

Aqui vai minha lista de pecados científicos que não se deve cometer em um estudo:

  1. FALHA EM COMEÇAR COM UMA HIPÓTESE CLARA.

A hipótese é o fundamento central de um estudo. Se um relatório não declara uma hipótese, os pesquisadores podem ter gerado os resultados aumentando as quantidades de desfechos estudados, o que automaticamente resultará num achado. Esta tática foi utilizada no estudo de Bohannon sobre o chocolate. 

  1. FALHA EM USAR MÉTODOS APROPRIADOS, BEM DEFINIDOS E REPRODUZÍVEIS.

A precisão e a reprodutibilidade são dogmas centrais para produzir dados confiáveis que mostrem conclusões válidas. Se um estudo não define apropriadamente os métodos, bem como controles apropriados, veja os resultados com desconfiança.

  1. USO DE ANÁLISE DE DADOS DISTORCIDOS OU TENDENCIOSOS.

Abordar dados com tendências pessoais é um verdadeiro pecado na prática científica. A ciência real usará “métodos de análises não cegos”, o que significa que não se sabe quais sujeitos receberam o tratamento, de forma a garantir que a análise não é influenciada.

  1. USO DE FRASES INCERTAS, POMPOSAS, OU NÃO TESTADAS AO DISCUTIR RESULTADOS.

Um linguajar grandioso pode levar a manchetes melhores. Mas, se esses termos não forem fortemente corroborados pelos resultados, esse exagero pode levar à promoção de falsas afirmações e conclusões. A ciência rigorosa não usará um linguajar absoluto. A boa ciência também considerará outros estudos publicados ao discutir os resultados.

  1. FALHA EM OBTER UMA REVISÃO DE COLEGAS.

O “temido” processo da revisão de colegas algumas vezes leva uma quantidade considerável de tempo. Ele pode até mesmo levar a experimentos e trabalho adicionais. (Confie em mim; já aconteceu comigo). Por outro lado, submeter um estudo à revisão de colegas é muito importante. A revisão de colegas cria uma autoridade para garantir que a pesquisa resista a uma análise científica.

  1. FALHA EM REVELAR CONFLITOS DE INTERESSE (COI).

Revelar qualquer acordo entre partes externas é crítico para manter e garantir que a integridade científica é preservada. O que está escrito em letras miúdas: COIs existem na ciência. O que é realmente importante é que esses conflitos sejam apropriadamente revelados. Um COI não desacredita automaticamente o estudo; trata-se de uma peça importante a ser considerada.

  1. TOMAR UMA POSTURA ABSOLUTA E SE RECUSAR A CONSIDERAR UMA NOVA EVIDÊNCIA.

Ser inflexível é um traço comum da ciência inútil. A ciência real abraça a totalidade da pesquisa, respondendo e mudando o curso quando novas evidências e estudos são publicados.

Há sérias implicações negativas quando a ciência inútil é aceita e promovida pela mídia e por outros. Mantenha todos os estudos nos mesmos padrões e garanta a apresentação dos dados mais precisos e rigorosos do ponto de vista científico, pois sem esses padrões, informações e resultados importantes acabam sendo enterrados debaixo de achados duvidosos, atrasando a descoberta e o progresso reais. E quem quer isso?

 

Megan Meyer, PhD (Director, Science Communication at the International Food Information Council (IFIC) Foundation)